
Local Ancestral foi o nome dado à primeira exposição individual de desenhos que realizei em Porto Alegre em junho de 2018, realizada no bar e espaço cultural de resistência, Locals Only CB. Além da exposição, foi realizado um curso de extensão da FACED, a Faculdade de Educação da UFRGS e os pesquisadores do ZIP, Zona de Investigações Poéticas, organizados pelos professores Cristiano Bedin da Costa e Eduardo Pacheco. A aula performance que ocorreu no final da exposição teve participação da psicóloga escritora e pesquisadora de poéticas sobre o resistir, Juliane Farina. Os textos abaixo das imagens são de sua autoria e complementam a narrativa imagética criadas. O resultado desta aula é a Risca Cranial.

Rostos • carvão e pastel seco sobre papel • 55x65cm
Uma mirada no infinito da morte só encontra um espelho como fundo do poço. Os rostos publicitários se desmancham e o que se vê é monstruoso. Os olhos se esbugalham no vermelho de quem viu demais e guardam em si o sangue das explosões retidas. O monstro é um pressentimento. A eternidade fede...Tudo é violência nesse abismo que nos mostra os dentes e ri. Ri tão alto e aberto que se confunde com o silêncio mais escuro: buraco negro que tudo engolirá. A caveira é a única comunidade que nos cabe e toda a caveira ri, pois lhe é impossível não nos mostrar os dentes. Uma gargalhada interminável é a única resposta.

Dança • carvão e pastel seco sobre papel 55x65cm
Portanto, é preciso dançar até perder o rosto. Com o tempo, só se pode dançar. Enquanto uns exercitam a neurose de retirar a loucura e a sujeira de seu miserável e cada vez mais restrito campo de visão, outros dançam em tempo aberto. Enquanto uns querem parar o tempo pondo tudo a marchar 1, 2, 3, 4 nossa turma é um barato, 4, 3, 2, 1 mas não é pra qualquer um, um corpo dança e cavoca a memória negada pela árvore genealógica onde só se encontra o sobrenome dos homens.

Coração • carvão e pastel seco sobre papel • 55x65cm
E então, um órgão salta desse corpo e profana sua utilidade. Ocupar o corpo alheio não é a mesma coisa que invadi-lo, embora haja os que insistem na sinonímia. É coração o nome do encontro que começa antes da primeira vista. O diabo e a feiticeira se enlaçam no pacto que desvia o olhar dos amantes. Sem rosto para um mundo sem Deus, os homens de medo concebem a fúria como substantivo feminino.

Busto Feminino em Fúria • pastel oleoso sobre papel • 55x65cm
Uma mulher negra é Um corpo no mundo. Uma mulher branca que escuta Um corpo no mundo se torna uma órfã de santo e, na ancestralidade negra procura o que a filiação branca lhe escondeu e jamais lhe devolverá. Para começar o caminho, recusa-se a perpetuar filiações, prefere contagiar atavismos. Mas o que ela faz com a coceira que se excita nos mamilos em dias férteis? O que faz com este signo se não o interpreta como vontade de engravidar, gestar, parir, amamentar e dar de viver aos homens? O rosto da mãe explode! Em dias férteis, mulheres que recusam filiações encarnam demônios e os fazem nascer. Para isso, uivam para os mortos, trepam com garrafas, choram até lavar os rios, misturam feitiços, inventam venenos...

Esqueleto Cabeção com Bong Aceso • carvão e pastel seco sobre papel • 55x65cm
E quem flerta com venenos desfaz o rosto, esquece do espelho e desenvolve um olho que chega até a molécula . Para ver o invisível, olho no olho do disforme, informe, transforme. Qual será a dose prudente? Sempre poderá ser demais ou, pior, de menos. É preciso chegar ao local onde ainda não se sabe, ainda não se viu, nem homem, nem cachorro, nem Deus.

Capiroto • pastel seco sobre papel • 55x65cm
Sem este local, o inferno é uma geleira azul. Lá, o tempo foi congelado pelos homens de medo. Procura-se aqui uma mulher capaz de copular com o calor demoníaco e refazer o movimento. O diabo é transportador. Que o diabo nos carregue.

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